Tecendo destino

16 abril

Tecendo destino

Ela correu pela floresta, o capuz de veludo verde escuro da capa, encobrindo seu rosto enquanto esvoaçava junto com o vestido em tom parecido. 
Em meio as árvores, ela era quase imperceptível, como uma sombra, parecia um eco das folhas das árvores espalhadas ao seu redor.
Ela corria em um ritmo frenético e compassado, enquanto ouvia os mais diversos sons, as águas do rio próximo, sons de animais, seus passos compassados amassando as folhas secas de outono que caíram das árvores, mas ela só tinha ouvidos aguçados ao som dos cavalos.
Os corcéis negros de de lorde Gabriel Gordon e seu irmão Patrick eram fortes e velozes, eles ainda não tinham avistado ela, mas se a vissem ela jamais conseguiria fugir deles.
O medo dela era quase palpável e apertava como uma mão envolvendo seu coração, se eles a encontrassem seria o fim, iriam torturá-la até conseguirem o que desejavam e ela não estava nem um pouco tentada a lhes dar o que queriam, encontrou uma clareira, isso era péssimo, sem árvores para envolvê-la era impossível se valer da camuflagem das vestes.

Largou a caneta sobre o caderno, parecia promissor, eis que mais uma vez a escrita fluiu feito água.
Passou alguns minutos olhando para o papel, incrível como se sentia poderosa quando escrevia, como era interessante criar, como era avassaladora a sensação de dar vida a uma história, montar uma trama, sentir o que os personagens sentem, ouvir suas vozes na cabeça. 
Quantas vezes ela se sentou para escrever, para se livrar das vozes vorazes dos personagens, clamando por serem escritas. Quantas vezes, começou a escrever algo e no decorrer das linhas, a escrita tomou seu próprio rumo, como se parte da sua consciência simplesmente desligasse e ela perdia totalmente o controle da caneta, as palavras fluíam como um jorro e quando revisava, encontrava algo que simplesmente não sabia dizer de onde havia surgido, as vezes a história de amor se tornava trágica, em outras o final previsível se transformava em algo totalmente inesperado. 
Tinha perdido a conta, de quantas vezes teve que descarregar a mente no papel, apenas para poder dormir, ler ou fazer alguma atividade normal, quantas vezes se pegou falado feito uma louca pela casa, se sentindo tola quando alguém a surpreendia fazendo isso.

Se pudesse mostrar sua mente, nesse exato momento, o que as pessoas veriam era a mulher ruiva correndo na floresta com sua capa e vestido verdes, seus perseguidores em corcéis negros, montados com austeridade em busca da mulher, querendo a todo custo capturá-la, questioná-la. Patrick com seus olhos escuros e expressão grosseira, escondendo no fundo o fascínio que a sentia por ela, o quanto era apaixonado por ela, mas era a seu irmão Gabriel que ela estava prometida, sua cunhada por aliança, a mulher com quem ele sonhava, com seus cabelos cor de fogo, seus olhos claros e tempestuosos, seus lábios carnudos que sonhava um dia tocar com os seus, a pele clara e acetinada que sonhava um dia tocar com delicadeza, a voz incrivelmente linda, pronunciando seu nome apaixonadamente. Era nisso que ele pensaria enquanto o irmão que a teria um dia, a desprezava, sonhava em vê-la morta, em cortar sua pele suave, ver o sangue escorrer por ela, repuxar seus lindos cabelos ruivos enquanto a via sofrer. Patrick o odiava, por ele ser um maldito psicopata grosseiro, por estar empreendendo essa caçada, querendo machucá-la, atravessar as costas dela com uma flecha para não ter de deitar-se com ela, para não sujar seus lençóis com aquela "vadia ruiva", como Gabriel costumava chamá-la.

Ela poderia contar de forma narrativa a seu leitor essas coisas, poderia desenvolver tantas outras, infinitas eram suas possibilidades, poderia fazer Patrick salvar a moça, matar o irmão e ajudá-la a fugir, poderia fazer ela ser pega e morta e explorar o sofrimento da perda. Poderia criar diálogos, poderia fazer com que ela conseguisse escapar, poderia dar poderes mágicos a ela, poderia inserir um herói que a protegesse, ou dar a ela uma espada para que matasse Gabriel, Patrick ou ambos, poderia fazer ela se apaixonar por Patrick ou que ela o odiasse mais que a Gabriel, tornando o amor dele apenas platônico e impossível, poderia criar tantas coisas em volta de uma simples premissa. 
Era uma uma mulher correndo em uma floresta, sendo perseguida por dois homens, era uma coisa simples, mas que poderia se tornar tão complexa com o desenvolvimento. 
Poderia dar profundidade a eles, poderia dar a eles um espaço, contar suas histórias e entrelaçá-las como uma Moira grega que tece o destino.
As possibilidades eram muitas, ela poderia fazer o que bem quisesse, em seu mundo ela era a rainha, era ela que determinava tudo, o poder estava em suas mão, em sua caneta e no doce movimento do punho, quem a olhasse de longe escrevendo veria apenas uma mulher normal, em seu jeans velho, sua blusa confortável, as pernas entrelaçadas sob a mesa, com uma expressão de pura concentração, desferindo no papel rabiscos, tal qual seu personagem desferia golpes de espada, com movimentos leves e fluídos, tal qual a capa da mulher ruiva enquanto corria, poderia imaginar diversos finais, dar ao leitor diversas pistas e por fim surpreendê-lo, partindo seu coração ou o enchendo de alegria. 
Era esse poder que a fazia escrever sempre, que a impulsionava a continuar, os cometários dos leitores, dizendo o quanto gostaram ou o quanto se envolveram com aquilo, seu coração criativo se alimentava disso, sua essência era escrever e enquanto pudesse, enquanto houvesse algo fervilhando, pedindo para se tornar real em seu mundo, ela escreveria e se orgulharia de seu poder, de seu grande amor, de poder dar vida as coisas e dar boas histórias para o mundo.


Tecendo destino



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2 comentários

  1. Lila, eu já li vários e vários textos seus, e eu sempre adoro, mas esse me conquistou de um jeito absurdo. Eu amei a narrativa, o modo como escritora e escrita se misturaram, o modo como você usou a frase de inspiração. Adorei como você mostrou a infindável gama de possibilidades que a escrita permite e como tudo isso pode se entremear e desenvolver a partir de algo aparentemente tão simples, como a cena (que eu imaginei por inteira na minha cabeça) da ruiva em fuga na floresta.
    Amei muito! <3
    xoxo

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    1. Que bom que gostou! *-* Eu me apaixonei por esse texto assim que terminei, achei tão tão sincero... Passou todo o meu amor por escrever e quando sai com amor vira xodó =D

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